Os corações
(assim como pátrias)
não deveriam ter fronteiras
Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedaços
brotassem outras centenas.
Os corações
( assim como pátrias)
não deviam ter fronteiras…
mas têm.
Mauro Luis Iasi
Mil pássaros negros tecem a noite.
Mil noites cada pássaro,
mil dores cada pena.
Carregam mágoas e cicatrizes
que gravaram seu nome no corpo do tempo.
Como musgo que vive na pedra da velha abadia,
como algas do navio engolido pelo mar.
Seu canto noturno de silêncio,
seu manto profundo de oceano
de um verde abismal que serve de céu aos peixes
na solidão dos recifes e dos corais.
Um canto de tristeza e de ausência,
um canto sem melodia e sem palavras,
um canto da terra, um canto de todas as guerras,
um canto sem canto no oco da voz.
Essa noite me convida à tristeza,
a beber das lágrimas dos deserdados.
Esta noite me convida ao desespero
dos que partem sem nunca ter chegado.
Esta noite me convida aos amores que findam,
aos corpos que faltam ao encontro,
aos olhos cegos de todo brilho
ao silêncio que mora entre pai e filho.
Esta noite me levará um pouco até a morte
para que minha alegria visite o abismo.
Mergulharei, então, num mar de lágrimas
para resgatar das profundezas seu sorriso.
Cansado te trarei até a aurora
para que laves teu rosto das mágoas,
limpe tua alma de toda a dor
e despertes dos sonhos que te açoitam.
Mauro Luis Iasi
Não me agradam as Pátrias.
Nada me dizem as fronteiras,
talvez por serem bordadas em sangue
no corpo da minha bandeira.
Se tenho alguma sina,
que seja, então, brasileira,
mas antes do verde e amarelo
queria a aquarela inteira.
No fundo pintaria o negro
desta noite derradeira.
Um negro que saiu da África
que já foi a terra da minha companheira.
Do olho de minha amada
roubaria uma centalha
incendiando a manhã com o vermelho
do sangue da humanidade inteira.
Mauro Luis Iasi
Te amo
e odeio tudo que te deixa triste.
Se o mundo com seus horários e famílias
e fábricas e latifúndios e missas
e classes sociais, dores e mais-valia
e meninas com hematomas
no lugar de sua alegria
insistir em te deixar triste,
apertando tua alma
com suas garras geladas,
teremos, então, que mudar o mundo.
Nenhum sistema que não é capaz
de abraçar com carinho a mulher que amo
e acolher generosamente minha amada classe
é digno de existir.
Está, então, decidido:
Vamos mudar o mundo,
transformá-lo de pedra em espelho
para que cada um, enfim, se reconheça.
Para que o trabalho não seja um meio de vida
para que a morte não seja o que mais a vida abriga
Para que o amor não seja uma exceção,
façamos agora uma grande e apaixonada revolução.
Mauro Luis Iasi
Recolha cada poeira esquecida
Recolha cada memória guardada
Recolha cada rua anônima
Que não guarda o nome de suas pegadas
Recolha cada gesto indeciso
Cada intenção abandonada
Lembre-se que o caminho é feito
Também por trilhas não trilhadas
Não esqueça como foi vivido aquele abraço
Lembre-se sempre
Que o produto esconde o processo
O suor e o cansaço
Aquele que constrói raramente aparece
Fica ali no canto, invisível,
Sem nome, sem rosto
Sem corpo, sem gosto
Nunca esqueça dos esquecidos
Existem em sua inexistência
Como traço de luz no vinho tinto
Como alma depois do filme findo
Recolha tudo: o visível e o invisível
Então terás mais que nomes e fotos
Mais que biografias frias
Mais que simples história
Serão beijos molhados
Abraços ardentes
Pássaros em pleno vôo
Peixes lisos e frutas frescas
Então seremos eles e seus sonhos
E suas dores e seus partos
E suas lutas e seus amores
Sua fome e seu farto
Seguirão em nós
Porque os seguimos
Não morrerão
Porque não desistimos.
Mauro Luis Iasi
Cicatrizes são como folhas secas:
Já foram verdes
já foram vivas
já foram corte
já foram dor.
Sicatrizes são coisas passadas
que não se foram.
Mauro Luis Iasi
Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me’?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlor Drummond de Andrade
Page 1 of 38